Empate no arranque da temporada

  • Crónica

 

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Erro e consequência, almas gémeas e inseparáveis. Capazes de aplicar uma sentença brutal, ainda que justa, a uma partida de futebol. Senhores ditatoriais, amplamente disponíveis a esbater diferenças, estatutos, credos e filosofias. Muito do empate entre o humilde Gil Vicente e o catedrático Benfica se diluiu nesta perspectiva: erro e consequência. De forma brutal, insista-se, mas acertada.

 

Seria insensato, porém, não falar também do mérito. Do talento riquíssimo, rubis, esmeraldas e safiras, pedras raras e tão preciosas quanto o pontapé de Laionel, sempre Laionel, a 16 minutos do fim. Impossível não regredir um ano e recordar o mesmo Laionel a silenciar a Luz na primeira jornada. Impossível não escrever que a história tem uma tendência obsessiva em repetir-se.

 

Naquele instante, com tanto de mágico como de esotérico, se decidiu o primeiro jogo da Liga 2011/12: 2-2.

 

Aimar de fora: e muitos problemas

 

Há erros e erros. Voltemos a eles. De diferentes graus de gravidade. Um vestido vermelho num funeral pode, no máximo, envergonhar quem o enverga e ofender quem de negro veste. Uma invasão à Rússia em pleno Inverno, por outro lado, é bem capaz de arrasar um idealismo farisaico e desprezível.

 

A amplitude do erro atingiu níveis históricos na segunda parte. Sem Pablo Aimar depois do intervalo [ao que parece por problemas físicos], o Benfica cometeu o maior dos pecados e entregou-se ao deleite de uma magra e enganadora vantagem.

 

Aimar era o melhor em campo, jogava e fazia jogar. Axel Witsel tem tudo para ser uma figura grande neste Benfica, mas sempre num desenho que o compatibilize com El Mago. A equipa não soube, ou não quis, viver sem o argentino.

 

Não terá sido tão decisivo como tentar anexar uma Rússia cheia de neve, mas o Benfica preguiçou de forma grave e indolente.

 

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O galo sonha no poleiro do intervalo

 

Erro tremendo de Éder Sciola e finalização seguríssima de Nolito. 0-1, o Benfica a crescer e a convencer as críticas mais entusiastas. Distracção confrangedora do meio-campo gilista, entendimento soberbo entre Aimar, Gaitán e Saviola, golo de El Conejo e 0-2 no marcador. O Benfica pronto a humilhar, a esmigalhar um Gil tão tenro como a mais meiga das carnes.

 

Afinal não. O erro mudou de lado. Ruben Amorim aos papéis, o cruzamento de Luís Manuel no peito de Hugo Vieira e a bola fuzilada à baliza do seguríssimo Artur Moraes. O brasileiro já antes, aliás, adiara a celebração minhota ao desviar o remate de Luís Carlos num voo acrobata.

O óbvio tornou-se intrincado, o simples tranvestiu-se de complexo, e a segunda parte chegou com a tal mudança no Benfica e o 1-2 no marcador.

 

Explicações para um arranque mau (e democrático)

 

O Gil Vicente sobreviveu ao melhor Benfica neste jogo. Fez das fraquezas forças muito apreciáveis, especialmente alicerçado no estonteante trio de ataque: Laionel, Luís Carlos e Hugo Vieira. Mesmo com uma defesa tremelicante e um meio-campo incapaz de criar, os galos foram atrás do milagre, ameaçaram uma e outra vez até ao tal balão de inspiração do 2-2.

 

Toda a argúcia, toda a postura espampanante do Benfica se espalhou ali de comprido. O lapso de Rúben Amorim no primeiro golo e a saída prematura de Aimar não podem explicar tudo, claro, mas ajudam.

 

A este Benfica falta consistência mental, especialmente isso. Falta ultrapassar os horrores que a maldição de não ganhar desde 2004 na primeira ronda ainda impõe. E falta, também isso, esquecer o domínio claríssimo do F.C. Porto na pretérita temporada.

 

Valor individual existe, isso é inquestionável. Nolito é um kamikaze incontrolável, Witsel um médio completo, Garay um central muito interessante.

O erro, no entanto, não olha a nomes e ao valor dos passes. É cruel e traz consequências imprevisíveis. Neste arranque, o Benfica errou tantas vezes quanto o Gil Vicente. O preço a pagar foi equitativo. Nada mais justo e democrático.

In: Maisfutebol

 

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Gil Vicente: Adriano; Éder, Sandro, Cláudio, Júnior Caiçara; André Cunha, Luís Manuel, João Vilela; Hugo Vieira, Laionel, Luís Carlos.
Ainda jogaram: Tó Barbosa (Luís Carlos, 68min), Pedro Moreira (Laionel, 83min), Paulão (Hugo Vieira, 90min).
Golos: Hugo Vieira (37min), Laionel (74min).
Cartões Amarelos: João Vilela (76min), Hugo Vieira (77min).
Cartões Vermelhos: -

 

Benfica: Artur Moraes; Ruben Amorim, Garay, Jardel, Emerson; Javi García; Gaitán, Pablo Aimar, Nolito; Jara, Saviola.
Ainda jogaram: Axel Witsel (Pablo Aimar, 45min), Enzo Peréz (Gaitán, 60min).
Golos: Nolito (8min), Saviola (20min).
Cartões Amarelos: -
Cartões Vermelhos: -

 

  • Avaliações

 

Record (2)

Bom começo no apoio ao jogo ofensivo da equipa, assumindo papel importante nos dois golos da equipa. No primeiro fez um passe milimétrico para Nolito e no segundo é ele que ganha o primeiro ressalto. Mas a contrapartida foi bem penalizante para a equipa, ficando, também, ligado aos dois golos do Gil Vicente: deixou Hugo Vieira entrar, nas suas costas e depois todo o espaço para Laionel rematar à vontade.

 

O Jogo (5)

Foi um dos jogadores que melhor entrou em campo. Acutilante, entrou nas principais jogadas da equipa, destacando-se pela assistência para Nolito no 1-0 e pela intervenção também no 2-0. Pecou, porém, pela falha no golo de Hugo Vieira.

 

  • Declarações

 

«Temos de ser campeões»

 

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Uma das surpresas do onze encarnado na noite de estreia do campeonato, Ruben Amorim, não tentou arranjar desculpas para o empate e, muito menos, acalmou os ânimos em relação aos objectivos da equipa. "Temos de ser campeões e não vai ser este resultado que vai mudar o nosso rumo", começou por explicar o médio adaptado a lateral, continuando o raciocínio: "Queríamos a vitória, aliás, o Benfica tem de ganhar todos os jogos! Há vários anos que esta equipa não consegue ganhar na primeira jornada, mas, repito, não nos vamos desviar do nosso caminho. Temos uma semana para retificar o que de menos bom foi feito."

 

O jogador português até entrou com o pé direito, assistindo para o 0-1. O pior foi depois quando Hugo Vieira lhe apareceu pela frente. Abordando o jogo globalmente, Ruben Amorim deixa um aviso: "Foi um mau resultado. Depois de estarmos a ganhar por 2-0, soube a derrota. O Benfica tem de saber segurar vantagens como esta. Claro que depois do 1-2, o Gil Vicente galvanizou-se. O futebol é assim mesmo..."

 

In: Record

publicado por Frederica às 22:13
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