A outra bola de Ruben Amorim

  •  Reportagem

 

Tem 23 anos e começa esta semana a sua aventura como jogador do Benfica. Depois de duas épocas ao mais alto nível no Belenenses, Ruben Amorim regressa a um clube por onde já passou nos escalões de formação. Será no meio campo encarnado, órfão de Rui Costa, que o médio terá de se impor e provar o seu valor. Pressão? Talvez, mas é para combater isso mesmo que servem os tempos livres. E, a poucos dias de iniciar a época de águia ao peito, convidámos Ruben Amorim a calçar uns ténis um pouco diferentes dos habituais e fomos com ele jogar bowling, como tantas vezes faz para descontrair do stress do futebol. Depois de o ver em acção chegámos a uma conclusão: seja com os pés ou com as mãos, Ruben Amorim é bom de bola.

 

 

«É uma boa forma de me abstrair do futebol. Quando estou aqui só penso em derrubar os pinos, mais nada.»

 

Strike atrás de strike. Não fizemos as contas, mas podemos dizer, sem grande margem de erro, que Ruben derrubou todos os pinos em mais de 75 por cento das bolas que lançou pela pista. Parecia um profissional... Não se pense, porém, que o novo craque do Benfica passa os dias nas pistas de bowling, o jogo funciona apenas como um "comprimido" para o alívio das dores causadas pelo stress do outro... jogo. "É uma boa forma de abstrair do futebol, é um bom passatempo. Quando estou aqui só penso em derrubar os pinos, mais nada." E o objectivo é mesmo esquecer o futebol. É por isso que tenta que os parceiros do bowling não sejam os mesmos com que partilha as horas de treino. "Não tenho o hábito de jogar com colegas, até porque alguns  são muito fala-barato. Já ouvi dizer que o Cândido Costa é muito bom nisto, mas até agora não vi nada. Fica já aqui um desafio...", brinca o jogador. Assim, as horas nas pistas são passadas, essencialmente, com amigos de longa data, colegas dos tempos de formação. "São pessoas que me acompanham há muito tempo, umas que não têm nada a ver com o futebol, ou então amigos que fiz nos tempos de júnior, que ainda jogam ou que já arrumaram as botas." Mas embora os tempos sejam de descontracção e relaxe, o objectivo é o mesmo que tem dentro das quatro linhas. "Detesto perder, até aqui. Aliás, quando não se gosta de perder, nem a feijões se admite essa possibilidade." Ainda assim a pressão é outra. Aqui o castigo por perder passará pela observação da satisfação alheia, no campo as consequências podem ser mais difíceis de enfrentar. "O treinador Jorge Jesus costumava dizer que não há pior pressão que a de jogar para não descer. Há a pressão de ser campeão, a de ir à UEFA e a de não descer. Esta é a pior, sem dúvida. Já a vivi e é muito complicada e é nestas alturas que se torna tão importante ter uma vida satisfatória fora do futebol." Este ano tudo será diferente. Jogar para não descer não se coloca, tentar alcançar a UEFA nem chega a ser um objectivo secundário: na Luz joga-se para ser campeão.

 

 

Belenenses no coração, mas com alguma mágoa

 

Ao longo de cinco épocas na equipa principal, Ruben Amorim foi ganhando o seu lugar na equipa azul. Passou de jovem esperança a peça fundamental no onze de Jorge Jesus. Por tudo isso o jogador confessa que os azuis do Restelo estarão sempre guardados num lugar especial. "Nunca direi mal do Belenenses. É claro que também tive os meus momentos difíceis, mas não se pode confundir certas pessoas com o clube. Em Portugal dá-se muito valor aos estrangeiros e os portugueses, como são da casa, acabam por ficar em segundo lugar. Cheguei a sentir isso no Belenenses, não sei se vou sentir o mesmo no Benfica, mas sei que em Portugal é assim. Tenho pena que os clubes que vivem situações financeiras precárias não apostem na juventude. Agora já há mais espaço que antes, mas não basta colocá-los a jogar, é preciso criar condições. Quando se fala em contrato há que dar o mesmo que se dá aos que vêm de fora. Essa é das mágoas que tenho, claro que isso não é exclusivo do Belenenses, mas isso são as pessoas e não o clube. Esse é fantástico, só tem uma lacuna, merecia mais gente no Restelo, mas tem muita gente boa de quem vou ter saudades."

 

Nome no PES é sonho antigo...

 

Com 23 anos Ruben está em idade de pura diversão. Semi-casado - vive com a namorada na sua casa nova há poucos meses - o novo jogador do Benfica confessa que não gosta de muito de sair à noite, nem tem locais preferidos de diversão. Em caso de dúvida prefere mesmo reunir toda a gente lá em casa. "O que me interessa é estar com os meus amigos, com as pessoas de quem sou mais próximo, onde não é relevante." Na verdade, a casa é mesmo o segundo habitat natural de Ruben, depois dos relvados. É lá que encontra a sua outra faceta competitiva. "Gosto muito de jogar PlayStation, em particular o Pro Evolution Soccer (PES). Não sou muito ligado a computadores, mas gosto de jogar porque é mais uma forma de competir. E é sempre para ganhar, claro. Se perco vai toda a gente pela porta fora, ninguém joga mais", sublinha, divertido. Mas se no campo trocou a Cruz de Cristo pelas águias, no PES as suas preferências são outras. "Gosto muito do Barcelona, do Manchester United e do Inter de Milão. São com essas equipas que mais gosto de jogar e com as quais mais me identifico. Mas agora, no Benfica, quando sair a nova versão, passarei a ter o meu nome e o meu boneco no jogo. Assim vou ter de jogar sempre com o Benfica, claro."


Com o Benfica vem também um contrato melhor, consequência inevitável do valor que Ruben alcançou nas últimas temporadas. O jogador confessa que já tem ideias para começar a garantir o futuro, mas também vai satisfazer alguns gostos pessoais. "Antes de mais ajudar os próximos. Das primeiras coisas que fiz com o dinheiro que ia ganhando foi comprar uma casa para a minha mãe. Só eu sei os sacrifícios que ela fez. Agora vou ter outra liberdade financeira, mas também sei que o futebol são dez anos. Já tenho algumas ideias de investimento para ter retorno noutra fase da minha vida. Claro que também vou querer mimar-me um pouco. Vou trocar de carro, para já. Tenho uma carrinha Audi mas vou dá-la à minha mãe. Para mim vou comprar um Volskwagen Touareg, para as viagens, e um Mini Cooper para o dia-a-dia." Adiado, por agora, fica o sonho de quatro rodas de Ruben Amorim. "Gostava de comprar um Porsche Carrera… mas ainda não vai ser agora." Carros não são, porém, a primeira preocupação do atleta. Com o início da época chega o trabalho e os objectivos passam por jogar e bem, claro… ah, e já agora conseguir vitórias atrás de vitórias.

 

«Vim para o Benfica porque achei que era melhor para mim. Agora tenho de me afirmar e mostrar que fui uma boa contratação»

 

Regresso ao Benfica para provar valor

 

Como é óbvio, qualquer conversa com Ruben Amorim nos dias que correm não podia deixar o Benfica de lado. O jogador mostra-se tranquilo com o regresso a uma casa que já foi sua nos tempos de formação, mas ao mesmo tempo ansioso pelo inicio da época. "Voltar ao Benfica tem um gostinho bom, porque afinal quem tinha razão era eu. Mas não vim para o Benfica por isso, mas sim porque achei que era o melhor para mim. Agora tenho de afirmar-me e mostrar que fui uma boa contratação."

 

 

 

In: Revista J, O Jogo

Texto: Rui Jorge Trombinhas

Fotografias: Jorge Amaral

publicado por Frederica às 19:35
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