Grande entrevista ao jornal "O Benfica"

  • Entrevista


 

Ruben Amorim não engana. É um verdadeiro benfiquista desde pequenino. Ao longo da nossa conversa não escondeu, por diversas vezes, as suas emoções. E foi sempre com entusiasmo que foi falando da equipa, dos adeptos, do clube em geral e do futuro deste Benfica cada vez mais perto do grande objectivo desta época - reconquistar para os "encarnados" o escudo de campeão nacional de futebol... Apesar de todas as dificuldades que foram surgindo pela frente...

 

«Temos um grupo muito unido»

 

 

Comemoraste o golo em Coimbra com uma vivacidade impressionante. O que sentiste naquele momento?

 

- Para já era um jogo muito importante. Nós sabíamos isso. E à medida que nos aproximamos do final do campeonato, os jogos vão ganhando importância e há uma maior ansiedade. Sabíamos que o 2-1 é sempre um resultado perigoso, a qualquer momento surge um lance atípico, uma bola parada que muda tudo...

 

E esse lance acabou por surgir mesmo...

 

- Exacto! E acho que aquele meu golo, o do 3-1, nos deu mais força e segurança para terminar o jogo. Mas além disso, marcar um golo pelo Benfica é sempre uma elgrai enorme e foi isso que eu demonstrei.

 

Ainda por cima um golo bonito.

 

- Bonito pelo lance. O Di Maríafez um excelente trabalho, a bola veio direita a mim, tive mesmo de fazer aquele movimento porque não podia deslocar-me porque o Di María pôs-me a bola direita ao pé. Uma alegria enorme!

 

Olha, quando é que o Benfica vai ser campeão? Neste domingo? Para a semana? Quando receber o Rio Ave?

 

- Não sabemos. Por mim, só penso nos pontos que temos de fazer. Temos de vencer agora o Olhanense e depois temos de ir ganhar ou pelo menos empatar ao Dragão, neste caso, já que vencendo no sábado fica a faltar um ponto. Agora, claro, se a Naval resolver dar uma ajudinha, talvez sejamos já campeões no domingo.

 

Vocês têm sentido isso? Conversam entre vocês e dizer "Está quase.. está quase"?

 

- Sem dúvida! Brincamos uns com os outros. Alguns dizem que vai ser já no domingo, outros que não, que vai ser necessário ganhar no Porto... A única certeza que temos é a de que vamos ser campeões. Agora quando... É apenas um alvo de brincadeira no balneário...

 

"Está a mentir quem disser que não

é o Benfica quem melhor joga em Portugal"

 

Há em vocês a ideia de que são, de facto, a melhor equipa do campeonato?

 

- É difícil pormo-nos de fora e vermos as coisas de uma forma isenta. Nós bem sabemos o que trabalhámos durante o ano e aquilo que temos feito ate aqui. E isso conta e mexe connosco. Sabemos o que tivemos de trabalhar para chegar a esta vantagem que temos neste momento, mas também sabemos o que foi preciso trabalhar para praticar o futebol que estamos a praticar. Mas acho, sinceramente, que quem disser que este Benfica não é a equipa que melhor futebol joga neste campeonato...

 

Não percebe nada de bola!

 

- Ou então está a mentir... ou não está a ser capaz de ser isento.

 

Se te pedir uma lista das maiores virtudes deste Benfica, quais pões na pol?

 

- Em primeiro lugar diria união. Acho que temos um grupo muito unido. Depois o trabalho. Não é fácil falarde um clube que é o melhor clube do Mundo - que é o meu! Mas é um clube difícil. Um clube que luta contra muitos fantasmas. Bastou ver que a cada momento difícil, a cada resultado menos bom, e foram poucos, se levantaram dúvidas sobre a nossa capacidade de lutar contra as dificuldades. Levantaram-se muitas desconfianças que me pareceram infundadas...

 

O que é próprio de um clube que esteve muito tempo sem ser campeão...

 

- Sem dúvida que sim! Um clube tão grande como este que passou tantos anos sem ganhar o campeonato sujeita-se a momentos difíceis e foi preciso lutar contra essas dificuldades. E continua a ser difícil, porque ainda não somos campeões. Mas soubemos manter sempre os pés no chão, muito concentrados no nosso objectivo principal. Mesmo naquela fase em que obtivemos algumas goleadas, nunca pensámos que poderia ser fácil ou que iria ser fácil. Nunca! Conhecíamos o nosso valor, sabíamos da nossa ambição e para onde caminhávamos. O mesmo sucedeu quando perdemos. Continuámos sempre no mesmo caminho porque sabemos que este era o caminho certo.

 

 

"Olho para esta equipa com um orgulho enorme!"

 

Quando ficar de fora, pondo de lado o facto desagradável que é o de não jogar, tens prazer em ver os teus companheiros?

 

- Costumo dizer que pelo facto de ser benfiquista ando sempre com a mesma cara porque o Benfica ganha, comigo ou sem mim em campo. Claro que não é verdade. Quero jogar, é a jogar que sinto prazer e me sinto realizado. Mas mesmo quando fico de fora olho para esta equipa com um orgulho enorme. E o maior exemplo disso foi o jogo de Marselha. Fiquei de fora, até por causa de um problema físico, fui para a bancada, mas a forma como os meus colegas lutaram dentre de campo encheu-me de orgulho. A dominar o jogo, sofremos um golo injusto...

 

Uma arbitragem complicada.

 

- Há muito tempo que não via uma arbitragem assim! Mas contra tudo isso, ao ver e ao sentir de fora a personalidade deles, pensei para comigo: "Tenho orgulho em pertencer àquela equipa!" E esse foi um momento alto da nossa época! Muito alto! Senti que esta equipa iria ser campeã, porque trabalhava e merecia sê-lo. E estou certo de que vai ser.

 

E dentro de campo? Divertes-te?

 

- Claro!

 

"Como esta equipa tem um trabalho tão bem feito por parte da sua equipa técnica, todos os jogadores se sentem mais libertos e dentro do colectivo o talento de cado um torna-se mais visível"

 

É altura da tua vida de jogador em que mais te divertes a jogar?

 

- Acho que sim. Diria que este ano deixei de pensar tanto... Sou um jogador que pensa muito no jogo, que me preocupo muito com os pormenores tácticos, em tapar aqui ou tapar ali, e talvez perdesse com isso qualquer coisa do meu futebol. Acho que ainda posso melhorar muito. Liberto-me mais. Como esta equipa tem um trabalho tão bem feito por parte da sua equipa técnica, todos os jogadores se sentem mais libertos e dentro do colectivo o talento de cada um torna-se mais visível.

 

No teu início de carreira chegaste a estar no Benfica, chegaste a ir ao Sporting, as coisas não correram bem... o que se passou?

 

- Estive no Benfica cinco anos. Cinco anos fantásticos durante os quais aprendi muito. Depois acabaram com as equipas B e fui mandado embora. Depois fui ao Sporting, mas não consegui ficar lá e não voltei...

 

Não te sentiste lá bem?

 

- Não foi não sentir bem. Foi ter sempre aquela esperança de poder voltar para o Benfica um dia. Eu não queria ir para o Sporting. Não me preocupei muito com a minha carreira, já o disse várias vezes, não pensei muito se viria a ser jogadore ou não, jogava à bola porque gostava. Claro que havia a esperança, mas não foi por isso que as coisas correram melhor ou pior...

 

Mas a forma como agora ganhaste o teu espaço no Benfica também é a uma espécie de vitória contra essa contrariedades, ou não?

 

- Sabe melhor... sabe melhor... sinto que dei a volta por cima. Não vou dizer que mostrei a certas pessoas que estavam erradas, porque foram as circunstâncias que ditaram as coisas. Talvez nessa altura não merecesse peante outros jogadores que cá estavam. Foram opções. Mas de alguma forma estou a procar...

 

... que a razão estava do teu lado?

 

- De certa forma. E dá-me um certo orgulho.

 

 

Quando chegaste ao Benfica disseste algo como: "Espero muito de mim". Foi não foi? Achas que cumpriste aquilo que esperavas de ti?

 

- Sim. Sabia aquilo que queria e sabia que vinha para um clube difícil. Houve muita gente a dizer que eu seria mais um que não iria aguenar a pressão do Benfica. Depois, sendo português, fui visto de outra forma, o que aceito como normal...

 

Costuma haver menos paciência...

 

- Sim. E também porque vinha do Belenenses. Não sei. É uma certa forma que as pessoas tem, em Portugal, de ver o tutebol. E sabia que tinha também de lutar contra isso. Mas quando se tem confiança em si próprio, como eu tenho, e um apoio enorme à minha volta que me isola dessas coisas, tona-se mais simples. Mas ouvi muita coisa, e é complicado. Acho que cumpri o objectivo de me afirmar e provar que muitas dessas criticas estavam erradas. E espero ainda muito mais de mim!

 

E o que é que os adeptos e o próprio clube podem esperar de ti?

 

- Aquilo que digo desde o primeiro dia em que cheguei aqui é que darei sempre o máximo por este clube. Sou o mesmo que era no Belenenses. Dou tudo o que tenho porque é esta a minha forma de ser profissional. Tenho esse dever para com o futebol, que já me deu muito, porque foi atráves dele que pude ajudar a minha família. Mas fazer isso no Benfica é um extra. Sou benfiquista, sempre fui, e vivo tudo isso de uma forma  muito especial. No balneário há uns que brincam comigo porque eu sinto que vou ser campeão no Benfica e que isso vai ser algo de ainda mais especial, tenho a sorte que outros não têm - ser campeão pelo clube do meu coração!

 

Vais ser campeão como jogador e como adepto.

 

- É isso. Não sei... Só vivendo. E espero vivê-lo rapidamente.

 

Qual o teu melhor jogo desta época?

 

- Humm... melhor jogo meu, esta época...Estou a pensar mas não é por ter feito assim tantos grandes jogos...

 

Deixa-me discordar. Acho que fizeste alguns jogos excelentes.

 

- Talvez com o Paços de Ferreira, na Luz. Ou com o Porto na final da Taça da Liga,

 

Com um bocadinho de sorte e aquela ajudinha do Nuno.

 

- Exacto! Mas acho que fiz um bom jogo, sobretudo na segunda partte. Mas também fiz outros naquela psição em que costumo dizer que não gosto de jogar...

 

Defesa-direito...

 

- Sim. Não digo tão bem ofensivamente, mas no aspecto defensivo, de cumprir a minha função.

 

Pelo que se pôde ver o jogo de Liverpool não mexeu muito com a vossa cabeça...

 

- Há muita coisa para lá daquilo que se vê num jogo, no campo. Mas sou sincero. O jogo de Liverpool mexeu connosco porque estavamos convencidos de que iriamos ultrapassar a eliminatória. Deviamos ter passado. Tinhamos equipa para passar. Estávamos melhores do que o Liverpool. E essa semana foi a mais difícil de toda a época. Demonstrámos nestes últimos jogos que estamos motivamos e que estamos conscientes dos nossos objectivos, mas foi a semana mais difícil da época.

 

A espectativa era assim tão grande?

 

- Não por ser a Liga Europa... Porque sentiamos que poderíamos ultrapassar o Liverpoo. Aliás, em Anfield mal o jogo começou parecia que era o Benfica que precisava de ir à procura do resultado. Depois saímos de lá com uma derrota de 1-4  e sentimos que era injusto, que não tinha havido nada dessa diferença entre as equipas.

 

Mas tudo ultrapssado agora?

 

- Claro! Até porque há outros objectivos e nos concentrámos neles. Mas, e pensando que não estou a fazer nenhumainconfidência, quem sentiu mais a derrota foi o «mister» Jesus. Ficou com essa derrota atravessada!

 

 

Já pensaste no que vais fazer para comemorar o título?

 

- Não faço a mínima ideia. Não gosto de falar nisso. Não há lugar a festas enquanto não formos campeões.

 

Mas consegues imaginar a alegria dos adeptos?

 

- Vai ser incrível. Tenho dito a alguns colegas que eles não fdazem ideia daquilo que vai acontecer por todo o País. Vão ficar de boca aberta. Quanto a mim... Sou um rapaz que não chora com facilidade, mas acho que vou soltar umas lágrimas.

 

E estes adeptos também merecem ser campeões?

 

- Sem dúvida! Todos os anos são exceptcionais, mas este ano foram de mais. Sentiram desde início que poderíamos lá chegar e encheram estádios por todo o País. Merecem tudo!

 

Trabalhaste com Jesus no Belenenses. Agora repetes aqui a experiência. Ele está diferente?

 

- Não. Acho que não há grandes diferenças. Continua o mesmo na forma intensa como quer melhorar todos os dias. Basta vê-lo duranto os jogos e durante os treinos. Mas também estava curioso em vê-lo treinas um 'grande', numa realidade diferente, e ele procou que estava preparado de uma forma bem evidente.

 

Vem aí novo objectivo para o ano. A Liga dos Campeões. Sentes que o Benfica está preparado para enfrentar não uma mas várias equipas do nível do Liverpool?

 

- Sem. Veja-se como jogámos com o Marselha que foi eliminado pelo Milan e pelo Real Madrid. E penso que mostrámos como fomos muito mais fortes do que eles. Os responsáveis estarão a preparar o futuro do Clube, o Benfica tem de ter sempre grandes objectivos, não me cabe a mim falar nisso, mas sinto que é preciso segurar esta equipa.

 

In: Jornal "O Benfica"

(Sexta-feira, 23-04-010)

publicado por Frederica às 18:45
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